Bar da Piscina - O papo aqui é sobre natação


As despedidas, as memórias e tudo aquilo que não teve fim

Acabou de acabar o Open de Natação. Eu sempre me sinto um pouco "abandonado" quando um evento de natação termina, mas hoje, esta sensação foi diferente. Esta competição foi marcada pela despedida (emocionada e emocionante) da Flavia Dellaroli, as últimas braçadas do Rodrigo Castro e, possivelmente, da Fabiola Molina. Três figuras constantes e importantes da natação brasileira.

Vendo a forma como cada um lidou com o fim da sua carreira e, principalmente quando a Flavia disse na última entrevista que iria "descobrir como seria sua vida sem a natação", voltei no tempo, lá em 1995. Eu tinha 17 anos e parei de nadar! Nenhuma semelhança com o fim da carreira dos super-atletas mencionados acima, e quando eu digo nenhuma é nenhuma mesmo!

Não planejei parar de nadar, pra falar a verdade, não queria parar de nadar. Aos 17 anos eu ainda tinha sonhos, motivação e fôlego pra treinar muito. Enquanto via meus amigos parando, desesperados pra por fim na angústia que havia se tornado cada seção de treinamento para eles, eu me via sucumbir à sensação de frustração de querer continuar e não conseguir. Parei pra trabalhar e fazer faculdade. Ponto final!

A minha descoberta da "vida pós-natação" foi terrível. Eu estudava de manhã e entrava no trabalho às 13h30 em bairros completamente opostos da cidade. Por anos e anos quando chegava por volta das 14hs, que era o horário que eu começava a treinar, meu coração acelerava, eu pensava "um treino a menos, quando voltar já estou em desvantagem". Sim! Eu imaginava que voltaria, por isso, toda quarta-feira, antes de entrar pra primeira aula, ia na casa lotérica que ficava ao lado da faculdade e fazia uma fezinha na super sena (que não existe mais) e saia com a certeza absoluta que no dia seguinte, já milionário, chutaria tudo pro alto e voltaria pra piscina. Assim os anos de faculdade passaram, a vontade permaneceu, e a super-sena não saiu!

Mas agora, já formado, eu pelo menos teria um período pra treinar! Tudo bem, depois de 3 anos nadando de sábado e domingo (quando assim era possível), podia voltar a nadar com mais frequência. Mas pra que? Não haviam mais competições pra almejar, exceto aquelas que a própria academia onde treinei a vida toda realizava. Ok! Era o que tinha pro momento e era o que eu ia aproveitar. Eis que, em 2000, descobri a natação Master! Ehhhhhh! E com o tempo fui percebendo que poderia conseguir no Master tudo que não tinha tido tempo pra tentar enquanto era juvenil. E dessa vez seria tudo muito melhor. Eu não dependia de clube ou academia, pagava e fazia minhas próprias inscrições. Eu não precisava de um técnico pra me dizer que trabalhando e estudando era melhor parar de nadar. Eu fazia meu próprio treino, no horário que dava do jeito que dava e, acima de tudo, eu acreditava! Era a natação voltando pro "colinho do papai"!

E as coisas começaram a acontecer. Muitas competições, novos amigos, novas experiências. Nadei um paulista! Nadei um brasileiro! Ganhei em 1 ano muito mais medalhas que ganhava quando estava na ativa, aliás, me dei conta naquela época de como competia pouco! Eram 5 ou 6 competições por ano, enquanto no master cheguei a nadar 3 competições no mesmo fim de semana! O mais incrível: melhorava meus tempos de juvenil, mesmo treinando muito menos. Era a natação sorrindo pra mim de novo!

Em 2002, a primeira frustração master. Iria participar do sul-americano master! Minha primeira competição internacional. Uma gripe, sinusite, perfuração no timpano, primeira competição internacional adiada! Mais uma vez era a natação escapando das minhas mãos. Mas drama superado, a "carreira" de nadador master continuava a todo vapor. Aos 25 anos e, agora sim, oficialmente master, já conseguia estar no pódium de várias competições fortes, mesmo em meio a atletas que ainda estavam na ativa ou que eram "recém-aposentados".

Em 2004, durante a 2ª etapa do Circuito Paulista de Natação, realizado no clube Paulistano, fui nadar os 50 metros livre. Prova que nunca gostei muito. Nunca me esqueço que nadei a série posterior a do Fernando Scherer, o Xuxa! Na mesma raia! Ele já era da categoria 30+. E foi muito bacana, de certa forma, compartilhar a raia com um medalhista olímpico, aliás, em 2002, tive uma emoção ainda maior quando nadei 100 costas na mesma série que o Ricardo Prado que foi minha maior inspiração na infância. Enfim, voltando aos 50 livre: aos seus lugares, "Tchibum"... "que saída estranha", pensei enquanto tentava voltar da submerção que tinha sido maior do que eu desejava,  acelera...acelera...acelera... toquei na borda com a sensação e a certeza de ter nadado muito mal. E nadei mesmo! Mas de longe era a pior sensação que me tomava no momento. Tinha algo errado com meu ouvido direito. Parecia meio tampado, meio "desmontado", chacoalhava a cabeça e a sensação piorava.

Nao demorou muito e aquele pequeno incomodo foi virando um mal-estar. Muitos colegas da equipe, vendo meu desconforto, tentaram me ajudar, até que uma amiga pediu para um nadador da equipe que tinha problemas com ouvido me ajudar. Não cito o nome deste imbecil, mas me dou o direito de me referir a este cidadão como um grandissíssimo filho da p...(perdão pelo palavrão). Continuando, então o filho da p... , com muita má vontade, trouxe um frasco com álcool absoluto e me disse "pinga ai!". Eu nunca tinha usado aquilo, então, com o frasco na mão - e passando muito mal- perguntei "quantas gotas?". Ele, então, arrancou o frasco da minha mão e disse "Deixa, que eu pingo pra vc!", encostou a ponta do frasco no meu ouvido e proferiu um jato de álcool fortíssimo. Imediatamente senti queimar minha cabeça, a coluna formigava, fui perdendo a firmeza das pernas e parecia estar perdendo todos os movimentos. Só lembro da sensação horrível de estar perdendo os sentidos, de perceber um líquido amarelado sair do meu ouvido e do grandissíssimo filho da p... rindo, o que na hora me fez perceber que não havia sido um ato falho do idiota, mas uma maldade calculada.

Num rápido flashback, pra tentar não me alongar demais na pior parte desta história, depois de passar 2 horas quase desacordado no ambulatório do Paulistano, voltei pra casa e a partir dai foram 3 meses de tratamento de uma infecção fortíssima que quase virou meningite pois o jato de álcool devastou meu timpano e chegou a queimar a membrana que protege o cérebro, tive uma ocorrência de queda de plaquetas, que me afastou por 10 dias do trabalho, 6 meses sem sentir qualquer tipo de gosto do lado direito da boca, pois o álcool queimara algumas células do nervo facial, perda auditiva de 60% e  um zumbido insuportável que me deixou sem dormir por meses. Nesta época, passei por vários médicos, todos afirmavam a necessidade de cirurgia, mas muitos me diziam que mesmo após a cirurgia, voltar a nadar era improvável. Nada me atormentava mais do que essa possibilidade. Nem o medo da cirurgia, nem o zumbido enlouquecedor, muito menos a possibilidade de perder definitivamente a audição do ouvido direito. Eu só queria poder voltar a nadar!

Seis meses depois, lá fui eu pra faca! Cirurgia feita! Recuperei um pouco a audição, o zumbido continuava, mas parecia mais brando. Meses de tensão, pois o enxerto realizado no tímpano ainda poderia ser rejeitado pelo organismo e babau! Todo dia era uma tensão, medo de espirrar, medo de rir, medo de barulho. Medo!

Quando estava prestes a completar 1 ano sem, se quer, tocar os pés na piscina, o médico me liberou a voltar a nadar. Nunca vou esquecer "nade, mas proteja sempre seus ouvidos, use protetor, touca, pra sempre. E esqueça mar, rio, lagoa. Só piscina!". Lá fui eu sedento pra retomar a vida que tinham me roubado. Calção, protetor, touca, eu a piscina e... medo! De repente tudo que eu mais gostava me dava pânico! Hesitei pra colocar o rosto na água. Quando senti uma pequena gota d'água invandindo o ouvido por uma brechinha do protetor, travei! Já não curtia mais as braçadas, pensava na água, na infecção, na dor, na cirurgia. Nadar já não era um prazer, ou melhor, era um prazer com culpa! Mas persisti e, um mês depois, inflamação. "Fud..! Pensei eu. O enxerto foi pro espaço." Não foi isso, graças a Deus, mas mais uma vez longe da natação por mais 6 meses.

Nos anos que se seguiram vivia uma alternância, nadava 2 meses, parava 4. Já não podia fazer planos com a natação. Na verdade, nem queria. Planeja e me frustrava. Já eram 4 anos nessa história, indo a médico todo mês, desconforto, muitos reais gastos com toucas, protetores, remédios, tratamentos, terapias e pouco, muito pouco resultado. Em 2009, então, resolvi parar de tentar, decidi me apaixonar por outro esporte e, pra isso, a ideia era ficar longe de natação. Não assistir na TV, não ir às competições dos amigos, não acessar resultados pela internet. Nada! Natação, eu não quero mais você!

O negócio era correr. Lá fui eu! Troquei a touca pelo tênis e "simbora..." Participei de uma corrida. Legal! Na segunda fui ainda mais rápido. Na terceira, já tinha metas mais ambiciosas, na quarta "o que que eu estou fazendo aqui?", na quinta "preciso procurar outro esporte", na sexta "se eu continuar nessa droga, vou ficar igual a esse bando de gente com problema no pé, no joelho, na coluna, ai, além de surdo, vou ficar manco e corcunda". Não dava mais! Correr me fazia bem, mas não era nadar. Podia agregar, mas jamais substituir o esporte que me fez ser quem eu sou, que me deu os amigos, os bons momentos, as lembranças.

Em 2010 resolvi tentar de novo. Aceitei o fato de que as coisas não seriam mais como antes. O lema seria "nadar pouco, mas nadar sempre!". Desde então, nado não mais que duas vezes por semana. Quando sinto que algo pode estar estranho, paro por uma ou duas semanas. Participo de algumas competições, coloco metas bem menos ambiciosas e reaprendo, pouco a pouco, a ter a natação na minha vida de outra forma.

Nunca desejei parar de nadar! Nunca marquei uma data pra deixar de ser nadador. A vida tratou de preparar pra mim algumas despedidas forçadas que eu sempre tentei reverter para um "até logo...". Hoje, quando a Flávia Dellaroli deu sua última entrevista, findando uma carreira tão bem sucedida, com tantos sonhos realizados, eu percebi que, apesar de não ter nada que pudesse me comparar a ela, havia em suas palavras algo que nos tornava iguais. Ela dizia algo mais ou menos assim: "não são as medalhas, não são as conquistas nem o dinheiro. É a felicidade e a satisfação de fazer aquilo que se gosta, que dá prazer". É isso! Simples assim! E pra esse tipo de coisa, não dá pra dizer adeus.

Satiro Sodré/CBDA



Escrito por Rodrigo às 18h03
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Pelo fim dos cargos vitalícios nas Confederações esportivas

Pessoal,

está rolando uma petição pública com o objetivo de mudar a forma como são conduzidas as eleições nas confederações esportivas aqui no Brasil. Vou tentar ser "curto e grosso" na explicação: não é justo, nem benéfico ao esporte que organizações que recebem dinheiro público sejam controladas por dirigentes que se perpetuam no cargo, fazendo da confederação um bem próprio, por isso, está petição pública quer arrecadar 10 mil assinaturas pra conseguir mudar isso, limitando o tempo que um dirigente possa ficar no controle de uma instituição. Se você gosta do esporte e se preocupa aonde vai parar seu rico e suado dinheirinho que escorre pelos seus dedos através dos impostos, vamos nos mobilizar e atingir logo estas 10 mil assinaturas!

Ai vai o endereço da petição:

https://www.change.org/pt-BR/peti%C3%A7%C3%B5es/cob-cpb-e-confedera%C3%A7%C3%B5es-elei%C3%A7%C3%B5es-a-cada-4-anos-auditoria-plano-nacional-p%C3%BAblico-privado

Vamos ajudar nosso esporte a crescer e se tornar, de fato, um bem público!

 



Escrito por Rodrigo às 09h56
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Essa semana tem OPEN! Oba!

Começa na próxima quarta-feira, dia 07 de novembro, o VIII Open CBDA de Natação em Guaratingueta/SP. Esta é uma competição relativamente nova, que nasceu em 2005 complementando o Campeonato Brasileiro Jr/Sr de Verão. Competição que já começou com o pé direito, quando na primeira edição, na "abençoada" piscina do Internacional de Regatas em Santos, o nadador Kaio Márcio voou e fez um tempaço nos 50 metros borboleta quebrando o recorde mundial da prova. Reveja!

 

Este ano, o Open servirá de seletiva para o Campeonato Mundial de Piscina Curta a ser realizado de 12 a 16 de Dezembro em Istambul-Turquia e a nossa torcida é que mais atletas juntem-se ao grupo de 10 atletas já classificados pra competição. Vale lembrar que Cesar Cielo não viajará para Turquia e Thiago Pereira ainda não decidiu se vai ou se fica, sendo assim, poderemos ter uma seleção brasileira desfalcada dos seus dois principais nadadores.

Que novos nomes surjam, que a geração 2016 comece a dar suas caras chegando na primeira competição internacional do novo ciclo olímpico. Vamos torcer! E pra inspirar os nadadores, segue o vídeo dos 200 livre do Open de 2008, que também foi realizado pós-Olimpíada e também valia como seletiva para o Mundial, neste caso, o de Roma 2009. Esta prova foi a escolhida para relembrar esta competição pois mostra o atleta Nicolas Oliveira nadando para o índice numa prova em que o Brasil precisa urgentemente de renovação!

 



Escrito por Rodrigo às 19h39
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